O novo filme de Domingos de Oliveira causou estardalhaço no Festival do Rio. A razão da polêmica: O ator Pedro Cardoso, no discurso de apresentação, acendeu um debate sobre a questão do excesso de nudez na mídia contemporânea.
Partindo da revolução sexual que faz 40 anos, ele denuncia a exploração do nu [principalmente feminino] que se faz incessante nos meios de comunicação desde então, sem finalidade dramaturgica. A pornografia, que segundo ele constrange o artista e o público, abunda por pressões de produtores e diretores tendo em vista grandes lucros por ela gerados.
No discurso, ele se aprofunda em suas observações e termina por desconfiar que em quase toda forma de expressão pode haver aquilo que nomeou pornografia. Ela seria já intrínseca à nossa cultura televisiva e cinematográfica, por motivos puramente comerciais. Mesmo assim, ele é firme em sua opção pelo combate a essa prática que desonraria a arte verdadeira, que se presta a despertar o pensamento e não as sensações segundo o Pedro.
Além disso, em sua argumentação enumerada de forma não-linear no blog do filme [que segundo o ator trata de dramas que circundam o sexo sem abordá-lo de forma direta], ele defende outros inúmeros pontos de vista despertadores de questionamento, tais quais:
" Fiz algumas poucas cenas de nudez muito parcial e eu me senti sempre muito mal, porque, despido,
devia representar ainda, embora já sem personagem nenhum. Este absurdo causa grande desconforto
ao ator ou a atriz porque nos obriga a mentir, e mentir é o ato mais distante possível da arte
de representar."
"... ver a mulher que eu amo ter que diariamente se defender no trabalho contra a pornografia reinante, tornou este assunto a primeira ordem do meu dia. Se antes era apenas por responsabilidade profissional que eu me opunha a pornografia, agora é também por amor. Se alguém conhecer um motivo melhor do que este para lutar por uma causa, me diga, porque eu não conheço. ... o meu afeto não me nubla o discernimento. Ao contrário, acredito que ele me deixe mais lúcido porque mais determinado."
- " O anseio sexual é constante no homem, não deve ser permanentemente atiçado. Sem o ser, ele já nos
traz transtornos e alegrias suficientes. A arte e a cultura e o esporte e a amizade, entre outras
coisas, devem nos descansar dele, e não nos levar de encontro a ele. Quando assisitimos a um bom
filme (ou peça de teatro ou capítulo de novela ou programa de auditório, ou comercial de
televisão) ficamos felizes e temos vontade de viver, de encontrar pessoas e, quem sabe até, nos
apaixonarmos por alguém. Quando assisitimos a pornografia, somos induzidos a masturbação, ficamos solitários e depressivos. Enquanto a arte nos acalma, a pornografia nos angustia porque não temos
defesa contra ela. Qualquer pessoa é suceptível a nudez. A visão da nudez desperta inevitavelmente o anseio sexual; que, uma vez desperto, só sossega quando consumado. E como não o conseguimos consumar na velocidade em que ele pode ser estimulado, esta frustração nos irrita e acirra nossa violência. Daí o perigo de a pornografia ser difundida, sob o disfarce de obra dramatúrgica, com tanta frequência pelos meios de comunicação em massa. "
" Quando eu tinha uns 20 anos, aceitei o convite de Ivan Cardoso para atuar num filme cuja história
girava em torno da descoberta do sexo por jovens. Um dia, fui ao set e encontrei a filmagem de cenas de sexo onde só o que não havia era ereção e penetração. Eu disse a ele que não faria cenas daquela natureza, e de fato não fiz, apesar dos protestos do produtor, um tal de Anibal Massaini (parece que ele agora também é cineasta). Esse produtor colocou um dublê no meu lugar e rodou a
continuação da cena de ato sexual que eu havia interrompido no primeiro beijo, ainda totalmente
vestido. Desde que sofri essa afronta, ainda tão jovem, a questão da pornografia tem me agredido e interessado."
Como se vê, "Todo mundo tem problemas sexuais" e mais: erros de português, assumidos com a mais fina flor da norma impecável:
" Quem por ventura encontrar aqui algum erro de ortografia, por favor me ajude. Eles são muito frequentes por conta de uma renitente dislexia que me acompanha desde a classe de alfabetização.
Conto com vocês. " - 10/10/2008
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